Entrevista com José Tosi

Conversamos com José Tosi sobre a conjuntura econômica e as perspectivas para 2013; a tão preocupante questão de infraestrutura no nosso país e como esse problema pode afetar o Crédito.

Falamos também sobre:

  • a situação atual de crescimento econômico baixo com inflação em alta;
  • se existe alguma ameaça futura na economia e o que um gestor de credito deveria fazer para que isso não afete seus negócios;
  • queda das taxas de juros das linhas de credito e;
  • que diferenças regionais (econômicas) podem interferir no crédito e de que formas.

Com a palavra José Tosi:

José Tosi Goon-risk

A inflação já está presente em quase todos os drivers, em consequência de uma política expansionista (juros menores + gastos públicos + incentivos fiscais dirigidos ao consumo) e tudo precisa ser repensado para atacar a situação de vez. Aproveitando a fala da Dilma que afirmou que “o Brasil não flerta com a inflação, eu concordo, pois já estamos de compromisso com ela!

Além disso, o crescimento do País parece ter atingido seu teto: amplo emprego, crescimento real do salário, parque industrial com baixa ociosidade, importação de produtos acabados crescente.

Parece ser que – ideologias à parte, pois o Lula fazia uma administração pragmática da economia e contava com conselheiros do mercado, enquanto a Dilma está resgatando o “sonho” do Estado todo poderoso que os ideólogos do Politburo tanto gostavam – o aumento do investimento se faz absolutamente necessário, com o governo diminuindo seus gastos correntes para concentrar-se nas PPP onde o Estado cumpra seu papel de fomentador (e o BNDES pare de “agradar” alguns empresários com recursos  que deveriam ser supridos por Private Equities).

Pois bem! Qual será a mágica? Uma mudança desse tamanho pode implicar em 2 ou 3 anos de inércia e o convívio com a inflação nesse período pode “demolir” o capital eleitoral que o PT angariou na classe média e, consequentemente, deixando-o novamente com um terço da população mais sensível ao “populismo”, aliás, ferramenta política que, ao meu ver,  está sendo usada de maneira “abusiva” pela presidência desse país.

Parece claro que a SELIC manterá um processo de crescimento lento e gradual. Mas não acredito que os juros para o consumidor voltarão a crescer pois essa, afinal, é a bandeira popular que o governo atual parece não abrir mão.

E, se isso é verdade, qual o papel do gestor de crédito nesse ambiente?

Nos últimos anos, assistimos a uma diminuição do spread líquido por conta de dois fatores concomitantes:  (a) pressão dos bancos estatais aumentando a oferta de crédito a um juro final menor do que os existentes no mercado e (b) aumento da inadimplência em suas carteiras. Agora, esse mesmo gestor conviverá, se não for atuante, com uma situação de continuada diminuição do tal spread líquido por que a perda de crédito não está cedendo na velocidade com que crescerá o custo de fundos dos bancos.

A menos que o BC decida melhorar o ambiente com alguma medida para diminuir o custo dos bancos (diminuição do compulsório, por exemplo), a questão para o gestor de crédito ficará mais complicada. A resposta mais óbvia é o ganho de escala, mas – sem melhorar o nível de assertividade para a concessão de créditos para novos clientes – parece ser que o desconforto com o risco assumido será maior do que o apetite.

Portanto, conceder crédito com mais qualidade ganha contornos mais sérios do que no passado.

As informações do Cadastro Positivo aparecem como uma resposta natural e poderíamos explorar uma infinidade de caminhos para que essa ferramenta contribuísse efetivamente para a preservação da rentabilidade do sistema financeiro , mantendo a oferta de crédito nos patamares desejados.

Porém, a meu ver, sobra outro ponto a ser discutido.

Será que a família brasileira continua disposta a se endividar?

Particularmente, acho que não. Algumas razões para a minha crença:

  1. O nível de endividamento está no mesmo patamar de 60% há algum tempo;
  2. De acordo com a pesquisa do CNI , a disposição é de quitar dívidas antes de contrair novas;
  3. O patamar de crédito de pessoa física comparado com o PIB já atinge padrões de outros países mais desenvolvidos nos produtos sem garantia e em veículos; restando, apenas, a expansão do crédito imobiliário para o “catch-up” final… tudo isso precisa ser confirmado pelas estatísticas.

E, se estou certo, esse quadro forçará o Governo a buscar um outro modelo de crescimento que não esteja baseado na expansão do consumo. No mínimo, a expansão do consumo não pode se responsabilizar sozinha pelo crescimento do PIB – se quisermos atingir os patamares dos países em desenvolvimento. Excluindo-se a China, óbvio! “

Data de Emissão: 29/04/2013

Fernando Manfio

Fernando Manfio

CEO em GoOn Risk
Engenheiro formado pela USP e, de 2011 a 2013, se tornou “Coach” profissional, pelo Instituto Ecosocial, credenciado pela ICF ( International Coach Federation) e em 2013, pela SBC ( Sociedade Brasileira de Coach). Realizador do Fórum GoOn para o mercado de riscos, crédito e cobrança que busca promover o encontro das pessoas e profissionais do ramo para o verdadeiro compartilhar de conteúdo, experiências e divergências; em um ambiente humano, dinâmico e positive. É também autor do livro “O risco nosso de cada dia” ( Ed. Estação das Letras).
Fernando Manfio

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